Esta atividade de interpretação de crônica para 8º e 9º ano trabalha o texto “O moambeiro”, de Lima Barreto, autor em domínio público, com leitura voltada à crítica social, ao ponto de vista do narrador e à relação entre cotidiano e desigualdade. A crônica é curta, tem uma situação concreta e permite discutir como um episódio simples pode revelar problemas maiores da vida urbana.
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O material se encaixa em Língua Portuguesa, no campo artístico-literário, especialmente em aulas sobre crônica, leitura inferencial, crítica social e efeitos de sentido. A proposta dialoga com a habilidade EF89LP33 da BNCC, relacionada à leitura autônoma e à compreensão de textos literários, considerando características dos gêneros, objetivos de leitura, autores, temas e estilos.
Atividade de Crônica para leitura
O moambeiro, de Lima Barreto
Quando saio de casa e vou à esquina da Estrada Real de Santa Cruz, esperar o bonde, vejo bem a miséria que vai por este Rio de Janeiro.
Moro há mais de 10 anos naquelas paragens e não sei por que os humildes e os pobres têm-me na conta de pessoa importante, poderosa, capaz de arranjar empregos e solver dificuldades.
Pergunta-me um se deve assentar praça na Brigada, pois há oito meses não trabalha no seu ofício de carpinteiro; pergunta-me outro se deve votar no Sr. Fulano; e, às vezes mesmo, consultam-me sobre casos embaraçosos.
Houve um matador de porcos que pediu a minha opinião sobre este caso curioso: se devia aceitar dez mil-réis para matar o cevado do capitão M., o que lhe dava trabalho por três dias, com a salga e o fabrico de lingüiças; ou se devia comprar o canastra por cinqüenta mil-réis e revendê-lo aos quilos pela redondeza. Eu, que nunca fui versado em coisas de matadouro, olhei os Órgãos ainda fumarentos nestas manhãs de cerração e pensei que o meu destino era ser vigário de uma pequena freguesia.
Ultimamente, na esquina, veio ao meu encontro um homem com quem conversei alguns minutos. Ele me contou a sua desdita com todo o vagar de popular.
Era operário não sei de que ofício; ficara sem emprego, mas, como tinha um pequeno sítio lá para as bandas do Timbó e algumas economias, não se atrapalhou em começo. As economias foram-se, mas ficou-lhe o sítio, com as suas laranjeiras, com as suas tangerineiras, as suas bananeiras, árvore de futuro com a qual o Sr. Cincinato Braga, depois de salvar o café, vai salvar o Brasil. Notem bem: depois.
Este ano foi particularmente abundante em laranjas e o nosso homem teve a feliz idéia de vendê-las. Vendo, porém, que os compradores na porta não lhe davam o preço devido, tratou de valorizar o produto, mas sem empréstimo a 30%.
Comprou um cesto, encheu-o de laranjas e saiu a gritar:
“Vai laranja boa! Uma a vintém!”
Foi feliz e pelo caminho apurou uns dois mil-réis. Quando, porém, chegou a Todos os Santos, saiu-lhe ao encontro a lei, na pessoa de um guarda municipal:
“Que dê a licença?”
“Que licença?”
“Já sei”, intimou o guarda. “Você é ‘moambeiro’. Vamos para a Agência.”
Tomaram-lhe o cesto, as laranjas, o dinheiro e, a muito custo, deixaram-no com a roupa do corpo.
Eis aí como se protege a pomicultura.
Careta, 7-8-1915.
Fonte: crônica “O moambeiro”, de Lima Barreto, publicada originalmente na revista Careta em 7 de agosto de 1915 e disponível na Wikisource.
Vocabulário de apoio
Solver: resolver.
Assentar praça: alistar-se no serviço militar.
Cevado: porco criado para engorda.
Vintém: moeda de pouco valor.
Moambeiro: pessoa acusada de vender mercadorias de modo irregular.
Pomicultura: cultivo de frutas.
Exercícios de Interpretação de Crônica
- A crônica começa com o narrador esperando o bonde e observando a realidade ao seu redor. Que problema social ele percebe nesse espaço urbano?
- No segundo parágrafo, o narrador diz que os pobres o consideram uma pessoa “importante, poderosa, capaz de arranjar empregos e solver dificuldades”. O que essa percepção revela sobre a relação entre os moradores pobres e as figuras vistas como influentes?
- A crônica apresenta diferentes pessoas que procuram o narrador para pedir opinião. Que efeito essas situações produzem no texto: humor, crítica social, suspense ou romantização da pobreza? Explique sua resposta.
- Classifique as afirmações abaixo como verdadeiras ou falsas.
a) O narrador observa a pobreza a partir de situações do cotidiano.
b) O operário perdeu o emprego, mas ainda tinha um pequeno sítio.
c) O homem decidiu vender laranjas porque queria enriquecer rapidamente.
d) O guarda municipal tratou o vendedor como alguém que cometia uma irregularidade.
e) A frase final da crônica reforça a crítica do autor.
- O operário decide vender laranjas porque os compradores que iam até sua porta não pagavam um preço justo. O que essa decisão mostra sobre a atitude dele diante da dificuldade?
- Complete as lacunas com as palavras mais adequadas: narrador, crônica, crítica, cotidiano.
A __________ apresenta uma situação do __________ urbano para construir uma __________ social. O __________ observa a vida dos trabalhadores pobres e mostra como a lei pode agir de maneira injusta contra quem tenta sobreviver.
- Relacione as colunas.
Coluna 1
A. Narrador
B. Operário
C. Guarda municipal
D. Crônica
E. Frase final
Coluna 2
- Representa a autoridade que pune o vendedor.
- Gênero que parte de uma situação cotidiana para provocar reflexão.
- Personagem que tenta vender laranjas para melhorar sua condição.
- Voz que observa, comenta e conta os acontecimentos.
- Trecho irônico que amplia a crítica social do texto.
- Releia a frase: “As economias foram-se, mas ficou-lhe o sítio”. Que mudança na vida do operário é apresentada nesse trecho?
- O guarda chama o vendedor de “moambeiro”. Pelo contexto, por que essa acusação parece injusta ou exagerada?
- A frase “Eis aí como se protege a pomicultura” apresenta ironia. Explique o que há de irônico nessa conclusão.
- O texto foi publicado em 1915, mas ainda pode gerar discussões atuais. Que relação é possível fazer entre a situação do vendedor de laranjas e trabalhadores informais de hoje?
- Identifique uma passagem em que o narrador demonstre compaixão ou atenção à condição dos mais pobres. Em seguida, explique sua escolha.
- Reescreva, com suas palavras, o conflito central da crônica em 3 ou 4 linhas.
- Produza um pequeno parágrafo, de 5 a 7 linhas, explicando por que “O moambeiro” pode ser considerada uma crônica de crítica social. Use pelo menos uma informação do texto em sua resposta.
Gabarito
- O narrador percebe a miséria presente no Rio de Janeiro, especialmente entre trabalhadores pobres que enfrentam desemprego, dificuldades financeiras e falta de apoio. A resposta deve mencionar que o texto parte de uma observação cotidiana para revelar desigualdade social.
- Revela que pessoas pobres, muitas vezes sem acesso a soluções formais, procuram alguém que pareça ter influência para resolver problemas práticos, como emprego, decisões de trabalho e situações difíceis. A resposta pode variar, mas deve indicar dependência, vulnerabilidade ou falta de amparo social.
- A resposta mais adequada é crítica social, embora haja também certo humor irônico em algumas passagens. As situações mostram como os pobres recorrem ao narrador por falta de alternativas e como problemas simples revelam uma estrutura social desigual.
- a) Verdadeira.
b) Verdadeira.
c) Falsa. Ele decidiu vender laranjas porque precisava valorizar o próprio produto e enfrentar a dificuldade financeira.
d) Verdadeira.
e) Verdadeira. - Mostra que o operário tenta agir com iniciativa e buscar uma saída honesta para sua situação. Ele não está cometendo um crime grave, mas tentando vender o que produziu para conseguir algum dinheiro. A resposta deve destacar esforço, sobrevivência e tentativa de autonomia.
- A crônica apresenta uma situação do cotidiano urbano para construir uma crítica social. O narrador observa a vida dos trabalhadores pobres e mostra como a lei pode agir de maneira injusta contra quem tenta sobreviver.
- A resposta correta é:
A. 4
B. 3
C. 1
D. 2
E. 5 - O trecho mostra que o operário perdeu suas economias depois de ficar sem emprego, mas ainda conservou o pequeno sítio. Esse sítio passa a ser sua possibilidade de sustento, pois nele havia frutas que poderiam ser vendidas.
- A acusação parece injusta porque o homem apenas vendia laranjas para sobreviver, sem apresentar ameaça ou intenção criminosa. O exagero está no modo como a autoridade trata uma atividade simples como se fosse uma infração grave.
- A ironia está no fato de que a suposta proteção à pomicultura, ou seja, ao cultivo de frutas, resulta na punição de alguém que produzia e vendia frutas. Em vez de proteger o pequeno produtor, a autoridade toma seu cesto, suas laranjas e seu dinheiro.
- A resposta é pessoal, mas deve estabelecer relação com trabalhadores informais, ambulantes ou pequenos vendedores que enfrentam fiscalização, falta de licença, apreensão de mercadorias e dificuldade para trabalhar legalmente. Espera-se que o aluno perceba a atualidade do conflito entre sobrevivência, burocracia e desigualdade.
- Uma possibilidade é citar o início da crônica, quando o narrador diz que vê “a miséria que vai por este Rio de Janeiro”. Outra possibilidade é mencionar o momento em que ele escuta a história do operário “com todo o vagar de popular”. A explicação deve mostrar que o narrador presta atenção à realidade dos pobres e não trata o caso como algo sem importância.
- Resposta esperada: um operário desempregado, depois de perder suas economias, tenta vender laranjas de seu sítio para conseguir dinheiro. Quando começa a vender, é abordado por um guarda municipal, acusado de ser “moambeiro” e perde o cesto, as laranjas e o dinheiro. A crônica critica a injustiça dessa situação.
- Resposta pessoal, com variações. Espera-se que o aluno explique que a crônica é de crítica social porque mostra a dificuldade de um trabalhador pobre e a ação injusta da autoridade. A resposta deve mencionar elementos do texto, como o desemprego, a venda das laranjas, a abordagem do guarda ou a frase irônica final.
Como aplicar essa atividade
Momento ideal de aplicação: esta atividade faz mais sentido durante o estudo do gênero crônica, depois que a turma já compreendeu que esse tipo de texto pode partir de uma cena comum para provocar reflexão. Antes da leitura, vale conversar rapidamente sobre trabalho informal, vendedores ambulantes e situações em que a lei pode ser aplicada de modo desigual.
Dificuldade comum: os alunos podem entender o enredo, mas não perceber a ironia da frase final. Quando isso acontecer, retome a palavra “pomicultura” e pergunte se tomar as laranjas do vendedor realmente protege quem cultiva frutas. Essa comparação costuma ajudar a turma a perceber que o autor diz uma coisa para criticar o contrário.
Variação por perfil de turma: em turmas com mais dificuldade, trabalhe primeiro o vocabulário e leia o texto em voz alta, parando nos trechos principais. Em turmas mais avançadas, aprofunde a discussão sobre desigualdade, informalidade e abuso de autoridade. Como atividade complementar, peça que os alunos escrevam uma pequena crônica sobre uma cena atual de rua, ônibus, feira ou escola que revele um problema social.
Conclusão
A atividade com “O moambeiro” permite que os alunos do 8º e 9º ano interpretem uma crônica curta, mas com forte sentido crítico. Ao analisar o narrador, o conflito do vendedor e a ironia final, a turma desenvolve leitura inferencial e amplia a compreensão sobre como a literatura observa a vida social. O texto também favorece discussões importantes sobre trabalho, desigualdade e justiça, temas próximos da formação leitora nessa etapa escolar.
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